Rui Jacinto, geógrafo e profundo conhecedor da obra de Fernando Namora, conduz uma conversa sobre este escritor médico, figura marcante da literatura portuguesa do século vinte que se licenciou em Coimbra e fez parte da geração de 40 e da corrente literária do neorealismo. Faria no dia 15 de abril 107 anos. Esta sessão integra-se no Programa das Comemorações Populares do 25 de Abril em Coimbra e é uma organização conjunta da UPopular/Ateneu de Coimbra e da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos.

Nas palavras de Rui Jacinto,
“A vida vivida contaminou a obra de Fernando Namora com marcas indeléveis que evidenciam uma estreita correlação entre o percurso multiterritorial do homem e os diferentes ciclos de um itinerário criativo que o escritor, esquematicamente, demarcou do seguinte modo: “a fase de uma juventude em ambiente
universitário provinciano, a fase rural, depois a fase citadina, finalmente a confrontação do homem português com o homem de outros horizontes geográficos e culturais” (Encontros: 210). A vivência plena deste itinerário levou-o a plasmar, em inúmeras páginas que deu à estampa, verdadeiros mapas de um atlas literário onde inscreveu a alma das gentes e o espírito dos lugares por onde deambulou.
Nesta intervenção, pretende-se situar o homem no espaço e no tempo, contextualizar uma obra, vasta e multifacetada, tecida com tenaz labor ao longo de um largo período que coincidiu, em boa parte, com uma fase negra da história do país. Os laivos de atualidade que persistem na obra de Fernando Namora conferem ao seu legado uma dimensão intemporal cuja leitura é recomendada aos que pretendam compreender melhor o contexto sociopolítico em que foi construída. Num tempo em que se tenta apagar a História e em que o pensamento dominante se foca obsessivamente no urbano, a obra de Namora é uma feliz conjugação de opostos, uma salutar tensão entre contrários, seja entre nós e o outro, a noite e a madrugada, o rural e o urbano.”

Créditos de imagem: André Jerónimo
