
Duração: 4 sessões de 1,5 horas cada, a começar sempre às 18 horas
Data de início: 6 de maio
Horário e calendário: 6, 13, 20 e 28 de maio (o dia 20 será dedicado a uma visita ao sítio arqueológico da Penascosa e ao Museu de Foz Côa)
Local: Sala de Formação do Sindicato dos Professores da Região Centro – Rua Bernardim Ribeiro

Limite de inscrições: 50
Inscrições: as inscrições podem ser feitas até 5 de maio no formulário ao fundo desta página
Visita no dia 20 de maio: a Vila Nova de Foz Côa (Museu do Côa e sítio arqueológico da Penascosa), com partida às 07:00 e chegada até às 20:30. Número máximo de participantes: 48
O curso
A produção de imagens é um dos comportamentos que denunciam a existência de pensamento simbólico. Até há bem pouco tempo tida como apanágio do Homo sapiens sapiens, sabe-se hoje que o Homo sapiens neanderthalensis também produziu imagens, designadamente na Península Ibérica. Outras evidências ainda mais antigas localizadas em outras partes do mundo e produzidas por outros homininos, confirmam que outras humanidades também o fizeram. Por outro lado, não se podendo descartar por completo a sua produção sobre suportes que não chegaram até nós, tudo aponta para a existência de longos períodos em que os próprios humanos anatomicamente modernos não as produziram. Estes dois aspetos sugerem que esta atividade se correlaciona mais com dinâmicas sociais que com “capacidades biológicas”.
Neste curso, procurar-se-á demonstrar a importância das expressões gráficas pré-históricas do atual território português para, integrando-as no seu contexto sociocultural mais vasto, melhor compreendermos a relevância social das imagens, particularmente em sociedades sem escrita, assim como o seu potencial para nos aproximarmos de aspetos das sociedades que as produziram que muito dificilmente seriam abordados sem recurso a fontes escritas, designadamente cosmovisões e formas de organização social.
Programa
Sessão 1 (6 de maio): “Das origens à tradição gráfica paleolítica do Sudoeste europeu”.
Nesta sessão abordam-se as primeiras evidências de comportamento simbólico por parte de indivíduos do género Homo, com particular ênfase para a produção de imagens, e o lugar da tradição gráfica paleolítica nesta problemática. De facto, o que parece ser um exclusivo dos humanos anatomicamente modernos é a produção de imagens figurativas e, entre estas, destacam-se as que conformam a grande tradição gráfica do Paleolítico Superior europeu, com abundantes exemplos na Península Ibérica e designadamente em Portugal.
Sessão 2 (13 de maio): “Os sítios com arte rupestre do Paleolítico Superior em Portugal e o que nos podem eles contar sobre as sociedades coevas”
A tradição gráfica do Paleolítico Superior do Sudoeste europeu distingue-se pelo seu elevado grau de relativa homogeneidade formal. Estando balizada entre os cerca de 38 000 anos e os 12 000 anos atrás, foi produzida pelas comunidades de caçadores-recolectores que viveram durante a Idade do Gelo na Europa e apresentam caraterísticas muito próprias. A durabilidade desta tradição, a par de algumas das suas caraterísticas são evidências seguras da importância social da mesma. Esta sessão debruçar-se-á sobre essas caraterísticas e sobre o que elas nos dizem sobre as cosmovisões e organização social destas comunidades.
Sessão 3 (20 de maio): Visita guiada ao Museu do Côa e ao sítio da Penascosa (Vale do Côa)
O complexo de sítios com arte paleolítica do Vale do Côa corresponde à maior concentração de imagens deste período, localizadas ao ar livre, tratando-se de uma paisagem capital para a compreensão da relevância social deste fenómeno. O Museu funciona como um grande centro de interpretação onde se sintetiza o trabalho que se tem feito na região desde a descoberta das primeiras gravuras em finais de 1994. Já o sítio da Penascosa é um dos sítios maiores deste complexo e uma peça-chave para se compreender o funcionamento do complexo durante a sua fase mais antiga, balizada entre os 30 000 e os 23 000 anos atrás.
Sessão 4: As expressões gráficas pré-históricas de cronologia holocénica em Portugal: breve resenha
Há cerca de 12 000 anos, com o final da Idade do Gelo, as comunidades de caçadores-recolectores foram obrigadas a adaptar-se às novas condições ambientais, ora mantendo a continuidade de uma economia de predação sobre diferentes moldes (que carateriza o período Mesolítico na Península Ibérica), ora adoptando a agricultura e a pecuária (que carateriza o período Neolítico). Esta última resposta ocorreu primeiro na Sudoeste asiático, acabando por se difundir a partir daí, chegando à Península por volta de meados do VI milénio AC, paulatinamente substituindo o modo de produção mesolítico. Estas novas relações com o mundo implicaram profundas mudanças sociais e ideológicas que se expressam também nas produções visuais destas comunidades. Nesta sessão recorreremos aos exemplos portugueses que melhor documentam estas mudanças, procurando, no processo, demonstrar igualmente a relevância das imagens nos próprios processos de transformação económica e social.
Docente: André Tomás Santos

André Tomás Santos é professor auxiliar de Arqueologia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, investigador do Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património (CEAAP) e colaborador da UNIARQ – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa. Desenvolveu trabalhos de arqueologia por todo o país, e particularmente na Beira Alta, onde se tem debruçado sobre diversos aspetos da sua pré-história. Em 2017 defendeu o Doutoramento na Universidade do Porto, trabalho premiado pela Associação de Arqueólogos Portugueses no ano seguinte. Trabalhou durante 19 anos no Vale do Côa, continuando ainda hoje a dedicar-se ao estudo da sua arte paleolítica. É autor ou coautor de 3 livros e de mais de uma centena de artigos sobre diversos temas da Pré-história peninsular, publicados em Portugal e no estrangeiro. Foi ainda responsável pela edição de diversas obras coletivas.
